domingo, 15 de novembro de 2015

107 anos depois: considerações sobre a Umbanda na atualidade



Há 107 anos, manifestava-se o Sr. Caboclo das Sete Encruzilhadas, através do médium Zélio Fernandino de Moraes (1891-1975) e fundava uma nova religião. Religião essa, que posteriormente seria tida no discurso acadêmico, discurso esse, que um pouco mais tarde, seria apropriado como discurso nativo, como a única religião genuinamente brasileira. Essa nova religião integrou em seu corpo teológico e litúrgico aspectos do catolicismo popular, do espiritismo, das tradições religiosas africanas e das tradições religiosas indígenas.  Fundada na noite de 16 de novembro de 1908, a Tenda Espírita N. Srª. da Piedade, é tida como a “casa máter” da Umbanda, uma vez que foi o primeiro terreiro de Umbanda fundado. Definida por seu fundador espiritual - Zélio de Moraes nunca tomou para si o título de “fundador” da religião, mas apenas um aparelho para que o Caboclo das Sete Encruzilhadas anunciasse e fundasse a religião – “como a manifestação do Espírito para a caridade”, a Umbanda da atualidade é extremamente plural. Como toda religião em expansão, seu início foi marcado por embates que levaram a divisões. Por orientação do próprio Caboclo das Sete Encruzilhadas, em 1918, a partir da Tenda Espírita N. Srª. da Piedade, outras casas de Umbanda foram fundadas, e nestas seus dirigentes e suas entidades imprimiram na prática religiosa ali realizada características próprias. Dessa efervescência, surgiu o que chamamos de “vertentes da umbanda”: Umbanda Branca, Umbanda Mirim, Umbanda Tradicional, Umbanda Kardecista, Umbanda Sagrada, Umbanda Esotérica, Umbanda Omolocô, Umbanda Trançada (ou Umbandomblé), entre uma infinidade de outras vertentes. Algumas mais próximas dos parâmetros da casa máter de Umbanda, outras do parâmetro espírita, outras mais próximas do parâmetro africano e ainda outras onde parâmetros tradicionais, espíritas e africanistas imiscuem-se criando Umbandas com características muito próprias e diversas, muitas vezes esquecendo alguns princípios importantes estabelecidos pelo Sr. Caboclo das Sete Encruzilhadas. Dessa maneira, e diante a esse cenário tão diverso, o que pode ser dito sobre as Umbandas que vemos na atualidade? O que isso nos revela sobre a religião? Permanece até os nossos dias o legado do Sr. Caboclo das Sete Encruzilhadas e o Zélio de Moraes?

Após 107 anos, qual o legado do Caboclo das Sete Encruzilhadas?
“Umbanda é religião, portanto só pode fazer o bem”. Essa frase de autoria do sacerdote umbandista paulista Alexandre Cumino, talvez seja uma das melhores sínteses do legado que o Sr. Caboclo das Sete Encruzilhadas legou as gerações posteriores da Umbanda. Como supracitado, o próprio Caboclo, por ocasião da fundação da Umbanda, a definiu como “manifestação do Espírito para caridade”. Lamentavelmente, nos dias atuais, temos visto locais, que tomam para si o nome de umbanda, e praticam toda sorte de magia negativa em suas reuniões. Como é sabido de todos, desde o seu início e sobretudo nos dias atuais a Umbanda (e as manifestações afro-religiosas) são vítimas de preconceito, intolerância religiosa, violência e violações por parte de alguns segmentos religiosos, que vem crescendo no Brasil e buscam impor, seus padrões e princípios aos “pecadores” e “infiéis”. Infelizmente, o que se vê no Brasil são determinados grupos religiosos, que já foram inclusive perseguidos como hoje perseguem, querendo ressuscitar a sombria “santa” Inquisição e nas suas fogueiras queimar todos aqueles que não seguem suas normas, padrões e doutrinas, sobretudo os afro-religiosos e os LGBTs. Tais locais, que se dizem umbandistas, sem logicamente serem, só dão lenha para que tais grupos religiosos acendam suas fogueiras e vociferem acusações contra a nossa querida Umbanda. No entanto, não devemos nos esquecer, que Deus retribuirá a cada indivíduo de acordo com os seus procedimentos. E dentro das leis espirituais, especialmente a Lei de Causa e Efeito, sabemos que estes que praticam tais atos tem gerado para si mesmos e para aqueles que o seguem pesada dívida espiritual, que senão já nesta vida, no Mundo Espiritual e nas próximas encarnações lhe trarão pesadas consequências. Afinal, como ensinou Nosso Senhor Jesus Cristo no Sermão da Montanha ninguém deixará os ciclos de reencarnações em mundo menos evoluídos até que haja pagado o último centavo de sua dívida espiritual (Mateus 5:26). Logo o primeiro legado do Caboclo das Sete Encruzilhadas a Umbanda, independente da vertente que se é praticada, é a prática da Caridade como razão da Umbanda. Caridade esta, que não deve ser cobrada (Mateus 10:8. Ver o capítulo 26 de “O Evangelho segundo o Espiritismo”, intitulado “Dai de graça o que de graça recebestes”).
O segundo legado do fundador espiritual da Umbanda é a humildade que deve permear a prática, material e espiritual, da Umbanda, independente da vertente que seja praticada. Por definição do próprio Sr. Caboclo das Sete Encruzilhadas a Umbanda é uma “(...) religião que falará aos humildes, simbolizando a igualdade que deve existir entre todos os irmãos, encarnados e desencarnados (...)”. Infelizmente a humildade tem sido outro ponto esquecido em muitos terreiros, onde as disputas de ego, tem ganhado voz. E nessa disputa de ego, a Caridade sai de cena, e junto dela a humildade, deixando ali somente o egoísmo e a vaidade. A humildade que aqui falamos engloba 1) não rejeitar nenhum espírito que queira se comunicar, aprendendo com os mais evoluídos e ensinando os mais atrasados, como ensinou o fundador espiritual da Umbanda e 2) a humildade que deve reinar nos templos de umbanda e na posturas dos médiuns. A Umbanda não necessita de luxos e extravagâncias. Por isso mesmo, o Sr. Caboclo das Sete Encruzilhadas, determinou que todos aqueles que adentrassem a lide umbandista, deveriam se vestir de branco durante os trabalhos, mostrando assim a igualdade de todos diante Deus e os Sagrados Orixás.  O que vemos é que as casas mais humildes, são as mais comprometidas com a Caridade e a elevação espiritual, realizando belíssimos trabalhos.
E o terceiro legado do Sr. Caboclo das Sete Encruzilhadas à Umbanda, e que a caracteriza, é não se praticar sacrifício animal no ritual umbandista. Esse talvez seja o ponto mais delicado de se abordar. Se formos fazer um traçado das aproximações rituais da Umbanda por região, veremos que no Norte e Nordeste predomina nas umbandas uma forte apropriação dos rituais das religiões indígenas, da pajelança e do catolicismo popular. Na região Sudeste, predominantemente vemos a apropriação de princípios ritualísticos e doutrinários espíritas e afro-religiosos. E nas regiões Sul e Centro-Oeste, existe um profundo hibridismo do que se é observado nas demais regiões. E dentro de cada estado que compõe essas regiões, vemos as umbandas com características muito próprias. Tomemos por exemplo a região Sudeste. No estado de São Paulo, sobretudo na capital, predomina nas umbandas a influência do Espiritismo, e para além dessa influência também a influência da obra de Rubens Saraceni. Já em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, o que se observa são umbandas mais próximas da afro-religiosidade, notadamente do Candomblé. Onde é comum nesses estados, coexistirem nos terreiros Umbanda e Candomblé, onde a Umbanda, por sua fluidez, absorve muitos traços do Candomblé, como o sacrifício animal.
Entendemos que a Umbanda não pratica o sacrifício animal pois sendo a manifestação do Espírito para a Caridade, não pode haver caridade com a morte de nossos irmãos menores que também estão evoluindo. No entanto, entendemos também que devemos reconhecer e respeitar, as umbandas e suas práticas ritualísticas. Não estamos aqui para julgar a prática de quem quer que seja definindo o que é e o que não é Umbanda, uma vez que o princípio de praticar a caridade seja guardado, e naquele local não seja praticado nada que denigra o ser humano, num contexto geral, acreditamos que ali seja um bom lugar, relembrando sempre que o julgamento se reservará ao Pai Maior e aos Divinos Orixás, que retribuirão cada um de acordo com aquilo que fizeram dos conhecimentos que receberam. Como me ensinou uma querida Preta-Velha: Você é a espada de Ogum? Você é a machada de Xangô? Você é a flecha de Oxóssi? Você é o raio de Yansã? Você é as mãos abençoadas de Yemanjá? Você é o coração de Maria? Então por que julgas o teu irmão?”. Devemos considerar também, uma determinada hipocrisia quando o assunto é sacrifício animal. Uma vez que ninguém é contra matar um animal, para se comer no churrasco de domingo, regado a cerveja e balbúrdia, no entanto, quando se trata de um ofício sagrado (sacrifício = sacro, sagrado + ofício) a morte de um animal é visto como algo indecoroso e cruel. Mas qual a diferença do animal morto para se comer no domingo para o animal que se sacrifica para um Orixá no Candomblé ou para alguma entidade nas Umbandas que tem o sacrifício como uma de suas práticas, e que depois será igualmente consumido pela comunidade religiosa? Em nosso entendimento, no contexto umbandista o sacrifício animal é algo desnecessário e a sua não prática é um dos legados do Sr. Caboclo das Sete Encruzilhadas, nos cabendo, no entanto, respeitar e não julgar as casas de Umbanda que o pratiquem. Lembrando sempre, que a religião, seja ela qual for, é formada por seres humanos, em diferentes níveis de evolução, e com diferentes experiências religiosas e diferentes percepções de vida e de certo e errado.

107 anos levando “humildade, amor e Caridade” ao mundo!
Passados 107 anos que Zélio de Moraes anunciou a Umbanda e que o Sr. Caboclo das Sete Encruzilhadas a fundou, vemos que as palavras do fundador espiritual da Umbanda são ainda seu principal legado e características da Umbanda: “Umbanda é humidade, amor e Caridade”. Independente da vertente e das práticas peculiares de cada templo de Umbanda, vemos que a essa religião, genuinamente brasileira, vem a mais de um século sendo o lenitivo de corpos e corações torturados. Vemos que essa jovem religião, tem cumprido a sua missão. Como disse o Caboclo Mirim, através de seu médium Benjamim Figueiredo, “a Umbanda é a escola da Vida”. E é ainda o Caboclo Mirim, quem nos faz voltar as instruções do Sr. Caboclo das Sete Encruzilhadas, nos dizendo que “A Umbanda é coisa séria, para gente séria”.
Após os 107 anos da primeira manifestação do Sr. Caboclo das Sete Encruzilhadas, vemos na atualidade uma pluralidade de umbandas, muitas com práticas e conceitos muito particulares e uma Umbanda, marcada pelo hibridismo, mais do que em seu começo. Isso nos revela que a Umbanda, ao longo de mais de um século, é uma religião que apesar de ter princípios definidos, é uma religião aberta, e que agrega em seu seio aquilo que seus praticantes e mentores reconhecem como bom ou necessário.
Humildade, amor, Caridade, seriedade e estudo (Sim, estudo!) são características que não devem faltar a nossa Umbanda, independente da vertente que seja praticada, e características que jamais devem faltar aos médiuns da seara umbandista. Nós não podemos nos esquecer de nossas bases, de nossa ancestralidade. Portanto, devemos sempre voltar ao exemplo de Zélio Fernandino de Moraes, para desenvolvermos um trabalho a altura da proposta umbandista, e não nos esquecermos jamais, das palavras, instruções e diretrizes do Sr. Caboclo das Sete Encruzilhadas, para que jamais nos desviemos da senda estreita, e que muitas vezes nos pede sacrifícios de nós mesmos (Mateus 7:14), da Caridade. Saravá a nossa querida Umbanda! Saravá a estes 107 anos de “humildade, amor e Caridade”!


BIBLIOGRAFIA

http://www.juntosnocandomble.com.br/2013/01/umbanda-e-sua-historia-completa.html

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