domingo, 27 de setembro de 2015

Conversando sobre a Linha das Crianças


♫♫♫ Tem bala de coco e peteca, deixa a Ibeijada brincar!
Hoje é dia de festa, Ibeijada vem saravá! ♫♫♫

            Introdução
Mesmo quem cresceu em grandes cidades sabe que o mês de setembro, é dedicado aos santos católicos Cosme e Damião e conhecem a tradição de entregar doces em seu dia comemorativo. Com o surgimento da Umbanda, no ano de 1908, a veneração a São Cosme e São Damião adentrou a nova religião, muito pela influência do catolicismo popular e também pela influência africana, onde os orixás gêmeos Ibeji foram sincretizados com os santos católicos. Alegria, risadas, doces... Tudo isso é o que se vê em uma sessão onde incorporam os espíritos da Linha das Crianças, também conhecido como Erês. Qual é a função dessa linha? Qual a origem dos Espíritos que trabalham nela e como atuam? Essas perguntas nortearão nosso despretensioso estudo.

São Cosme e São Damião e a Linha das Crianças

São Cosme e São Damião não cobravam por seus atendimentos e recusavam qualquer forma de pagamento, exercendo a medicina por amor ao próximo.
Cosme e Damião, santificados pelo povo e depois reconhecidos oficialmente pela Igreja Católica, nasceram na região da Arábia, no século III. Desde jovens, a vocação para medicina dos irmãos era notável e quando se converteram a fé cristã, passaram a disseminar a religião através dos seus atendimentos médicos. Eles conheceram a medicina através da Levi, conhecido como santo e curandeiro pela comunidade local. Com sua experiência Levi os ensinou a prática médica, os ajudando a atender os necessitados. Cosme e Damião não cobravam por seus atendimentos e recusavam qualquer forma de pagamento que lhes oferecessem, exercendo a profissão por amor ao próximo, essa foi uma forma eficaz de espalharem o Cristianismo. O desenlace (morte) dos gêmeos é cercada de lendas, no entanto, historicamente sabe-se que com a perseguição promovida por Diocleciano, no ano 300, eles foram proibidos de exercer a medicina e logo depois presos, sob a acusação de inimigos dos deuses do panteão romano. Depois de algum tempo de martírio, eles foram decapitados, tornando-se assim mártires cristãos e sendo considerados os primeiros santos médicos da Igreja. A devoção aos santos chegou ao Brasil no ano de 1535, com a construção da primeira igreja católica do Brasil, na cidade pernambucana de Igarassu que foi dedicada a eles.
São Cosme e São Damião, foram sincretizados com Ibeji, orixás gêmeos, símbolos da inocência e pureza infantis, que transmitem amor e alegria a seus médiuns quando incorporados. Pelo fato do sincretismo aliado ao amor pela prática da caridade manifestado na vida dos santos, na Umbanda eles se tornaram os patronos da Linha das Crianças. 

  Oxumarê e a Linha das Crianças

Oxumarê, trono masculino do amor, orixá de todos os movimentos e ciclos, é o regente da Linha das Crianças.
A Linha das Crianças, é sustentada energeticamente, ou seja, é regida por pai Oxumarê, trono masculino do Amor. Mas por que essa linha é regida por esse pai orixá? Bem, os Erês simbolizam a ingenuidade e pureza das crianças, e a capacidade destas de mudarem, com rapidez, seus sentimentos. Quem nunca viu um adulto ralhar com uma criança e minutos depois ela estar junto dele o abraçando? As crianças são verdadeiros professores espirituais! Pai Oxumarê por sua vez, como divindade assentada no pólo negativo do Amor, atua absorvendo, diluindo e corrigindo os excessos e desequilíbrios no campo dos sentimentos, e simultaneamente, irradia energias de renovação. Oxumarê atua com os fatores diluidor e renovador, pois sua energia movimenta-se mediante uma onda dupla, onde uma onda age diluindo as negatividades dos seres, ao mesmo tempo que a outra onda vai renovando-os. Dessa forma, esse orixá rege a Linha dos Erês, pois a criança simboliza o renascimento, a renovação da vida, a inocência, a alegria e etc., ou seja, Oxumarê rege essa linha de trabalho justamente pelo fato dela nos conduzir a reassumirmos a nossa “criança interior”.
É por serem sustentados por Oxumarê que costuma-se dizer que os Erês não toleram ouvir assuntos negativos, uma vez que atuam para diluir tais negatividades e conduzirem os seres a renovação, uma vez que o próprio Oxumarê é o orixá de todos os movimentos e de todos os ciclos. Ou seja, através da irradiação que recebem de Pai Oxumarê, os Erês nos conduzem ao fim dos ciclos e ao início de outros, em outras palavras, essa linha de trabalho pouco compreendida, nos conduzem, através da sua vibração e energia, a nossa reforma íntima.

Irradiadores da energia de pai Oxumarê, os Erês nos conduzem ao reencontro com nossa "criança interior"

                              Origem e atuação dos Erês

               Origem dos Espíritos dessa linha

O que pode-se dizer sobre a origem dos Espíritos que atuam nessa linha, é algo bastante complexo, já que, como um todo, essa é a linha de trabalho mais misteriosa que há. Basicamente eles teriam duas origens: 1) Espíritos que desencarnaram ainda crianças, evoluíram no plano espiritual e optam por se apresentarem como crianças e assim trabalharem; e 2) Espíritos encantados, ou seja, espíritos que nunca encarnaram. São Espíritos que estão no plano encantado da evolução.
Sobre os primeiros, como sabemos os Espíritos foram criados simples e ignorantes, evoluindo através de múltiplas reencarnações. Sabemos igualmente que os espíritos não possuem sexo nem idade, conforme o nosso entendimento. E igualmente sabemos que a evolução do Espírito se dá tanto no mundo material, quanto no mundo espiritual. Essa primeira “classe” de Erês, alguns desencarnaram ainda muito pequenos e evoluíram no plano espiritual, onde adquiriram os conhecimentos necessários para hoje, através de seus médiuns darem consultas e prestarem a caridade. Vale ressaltar, que tanto nesse caso, quanto no caso do encantados, eles não conservam os trejeitos e gostos infantis por serem crianças, mas sim porque abraçaram o arquétipo infantil da fragilidade, docilidade, ingenuidade e franqueza. Sobre a forma que eles se apresentam, com aspecto infantil, é válido ressaltar que o Espírito desencarnado assume a forma que bem entende, moldando seu períspirito (corpo espiritual) da forma que achar melhor para que possa atuar no Bem.
Falando agora da segunda “classe” de Erês, os encantados estes são espíritos que ainda não passaram pelo processo encarnatório, mas estão evoluindo no plano encantado da evolução. Estes sim são espíritos ainda infantis, regidos pelas mãe Orixás, encantadas da natureza, em seus respectivos reinos da natureza, no seu lado espiritual, onde amparados por essas mães Orixás eles crescem e se desenvolvem, até alcançarem um novo estágio evolutivo, onde encarnarão. No estágio encantado, as mães orixás dedicam-se a educação moral, consciencial e emocional tais espíritos, dominando seus exageros e os conduzindo no caminho da evolução para que encarnem¹.

Atuação
Como comentado anteriormente os Erês são verdadeiros professores espirituais. Eles não nos deixam esquecer que a vida pode (e deve) ser divertida e nos ajudam a preservar nossos corações e mentes receptivos aos novos ciclos, ou seja, não deixam a criança interior que há dentro de cada um de nós morrer.
Quando manifestados dão seus atendimentos de forma simples e alegre, enquanto brincam com brinquedos e comem e distribuem doces e guaraná. Geralmente incorporam dando cambalhotas, pulando, rindo, correndo, e alguns chorando. Tal comportamento é uma forma de movimentação energética, que permite o descarrego energético dos médiuns e da assistência, ao mesmo tempo que enchem o ambiente de alegria e descontração.
E não devemos nos esquecer que as Crianças espirituais, também atuam na proteção das crianças encarnadas, na identificação e desmanche de trabalhos de magia negativa e também na cura de doenças, principal virtude dessa linha. Alguns médiuns videntes, relatam verem tais espíritos nos hospitais auxiliando tanto na cura dos encarnados, como no desenlace e encaminhamento dos recém-desencarnados².

Conclusão
Aos que desejam desfrutar da energia da Linha das Crianças, façam uma prece sincera e verão os resultados. Aos que puderem, ofereçam a elas doces e guaraná, junto com uma vela azul clara ou cor-de-rosa ou bicolor azul e rosa, e faça uma prece sincera, e se permitam sentir a vibração dos Erês. Tais doces e refrigerante, após a queima da vela, podem ser consumidos ou dados aos que necessitam, uma vez que estarão cheios da energia de cura e renovação das Crianças.
Para concluirmos esse sucinto e despretensioso estudo, lembramos que por trás dessa energia infantil, há algo muito mais forte e profundo: a força de Deus e de suas divindades, os Orixás. E também, por trás dessas Crianças, há a força que nos conduz a não nos perdermos entre as provas da vida, deixando morrer a nossa criança interior e nos conduzindo a nossa reforma íntima, lembrando sempre as palavras do Mestre Jesus em seu Evangelho: “Eu lhes garanto: se vocês não se converterem, e não se tornarem como crianças, vocês nunca entrarão no Reino do Céu. Quem se abaixa, e se torna como essa criança, esse é o maior no Reino do Céu”. (Mateus 18:3,4. Edição Pastoral); e “Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam; pois o Reino dos Céus pertence aos que são semelhantes a elas”. (Mateus 19: 14. Nova Versão Internacional. Grifo nosso.). Muita paz ao coração de todos/as! Salve São Cosme e São Damião e toda a Linha das Crianças!!! 


NOTAS: 

¹ Para maiores informações sobre o estágio encantado da evolução recomendamos que leiam o livro “A Evolução dos Espíritos”, de autoria de Rubens Saraceni publicado pela Ed. Madras.


² Ver o livro “Espíritos entre nós”, de James Van Praagh. Ed. Sextante. p. 55-56.


BIBLIOGRAFIA

LIVROS
SARACENI, Rubens. Os arquétipos da Umbanda: as hierarquias espirituais dos Orixás. São Paulo: Madras, 2014.

SITES
http://www.seteporteiras.org.br/index.php/tradicao/os­orixas/oxumare Acesso em: 14 fev. 2015







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