Tem-se verificado, em
muitas instituições espíritas do Brasil, algo seriamente preocupante: a
exclusão de pessoas. Sim, a exclusão dos mais diversos tipos de espíritos (encarnados,
mas também de desencarnados). As portas do trabalho no Bem têm sido fechadas
para irmãos e irmãs homossexuais, divorciados, pra aqueles, que por um ou
vários motivos alheios aos nossos conhecimentos, se evolveram ou simplesmente
nutrem sentimentos por pessoas casadas, e por aí vai uma série de outras
pessoas que são marginalizadas pelas instituições
espíritas, a pretexto de que são irmãos em desequilíbrio, necessitando de
tratamento espiritual. O que nós vemos e que os centros espíritas estão se transformando em instituições dogmáticas
e legalistas. Mas será que é esse o espírito do Cristo? Será que os
trabalhadores da seara do Bem tem que ser escolhidos por detalhes de suas
vidas/personalidades, que não nos desrespeitam?
“A
colheita é grande, mas poucos os operários! Pedi, pois, ao Senhor da colheita
que envie operários para a sua colheita” (Mateus 9:37,38. Bíblia de Jerusalém). Esse é um dos mais
importantes convites do Cristo. Como sabemos, a seara Divina está sempre
precisando de novos operários. Afinal, “os
campos já estão brancos para colheita” (João 4:35, BJ). No período que vive
nosso planeta – a transição planetária – mais e mais irmãos têm afluído às
casas espíritas, muitos a procura de socorro (que depois, poderão se juntar aos
operários do Cristo), outros vem para trabalhar e se doar no trabalho no Bem e
outros ainda, se achegam de nossas instituições devido a compromissos
reencarnatórios, de auxílio e estudo, assumidos ao reencarnarem. Diante disso
deveríamos fechar as portas do trabalho para estes irmãos? Como lemos no livro
Nosso Lar, quando o trabalhador está pronto o serviço aparece para ele.
Deveríamos nós impedi-lo de trabalhar?
Acredito que vem
faltando a muitos espíritas, refletirem um pouco sobre as atitudes de Jesus. O
Mestre estava sempre ao lado de toda sorte de gente (Marcos 2:15). Eram os
cobradores de impostos, as mulheres, as crianças, os leprosos, as prostitutas.
Em suma, o Mestre sempre estava com todos aqueles que eram marginalizados pela
sociedade e pelo sistema religioso da época. Entre os seus discípulos estava um
cobrador de impostos, Levi (Marcos 2:13,14). Jesus não desprezou ninguém! Todos
que queriam ouvi-lo e disseminar a Boa Nova eram por ele aceitos. E Jesus, não
olhava para os detalhes da personalidade ou da vida daqueles indivíduos, mas o
Mestre olhava para o íntimo daqueles espíritos. Pois paremos e reflitamos um
pouco, sobre Levi e o jovem rico (Marcos 10: 17-22). Levi era rechaçado por
todo o povo de sua época por ser um publicano. No período da dominação romana,
os impostos cobrados foram o que os judeus tiveram mais dificuldade para
aceitarem. Logo, eles tinham verdadeiro pavor dos impostos, e consequentemente,
dos encarregados de cobrá-los. Mas foi naquele publicano, que o Cristo viu o
potencial para levar a sua mensagem aos corações flagelados. Foi aquele que a
sociedade constantemente maldizia e desprezava que aceitou de bom grado o
trabalho na seara de Jesus e posteriormente, tornou-se um dos quatro
evangelistas. Já aquele jovem rico era o modelo ideal de conduta. Seguia desde
a mocidade os mandamentos da lei mosaica (Marcos 10:20), mas no entanto o seu
coração não trazia a disposição para o trabalho. Dentro de si não havia sentimentos
fraternos. Pois quando o Mestre o convidou a dar sua riqueza aos que mais
necessitavam e segui-lo ele “contristado
com essa palavra saiu pesaroso, pois era possuidor de muitos bens” (Marcos
10:22, BJ). Vejam só, que um era marginalizado pela sociedade e o outro era o
modelo ideal da sociedade judaica, mas o Mestre não se deixou levar pelo que
dizia a sociedade. O Mestre não se deixou levar pelas aparências. Mas ele viu o
que cada um trazia dentro de si. ‘Mas nós não podemos ver o íntimo dos outros!’,
argumentam alguns. Por isso, devemos nos lembrar de fazermos ao nosso
semelhante àquilo que gostaríamos que fizessem conosco. Porque o amor, esse
amor irrestrito e inclusivo, conforme nos exemplificou o Cristo, é o resumo de toda a doutrina que o Cristo
nos ensinou, é o que nos propicia andarmos de forma mais segura em nossa
estrada evolutiva e ajudarmos na evolução de nosso planeta. O que muitos se esquecem
de que o Evangelho é inclusivo.
Todos os corações de boa vontade são chamados a espalhá-lo pelo mundo!
O Espírito de Hammed,
através da mediunidade de Francisco do Espírito Santo Neto, nos traz alguns
ensinamentos muito importantes. Ele nos ensina que as maneiras errôneas de
vermos (e compreendermos) a múltiplas manifestações da sexualidade, as
múltiplas manifestações religiosas, o casamento, a diversidade étnica e
profissional só tem nos afastado da realidade das situações e dos indivíduos. Todos
sabem que quando ingressamos na religião x ou y nós temos a tendência de levar
para ela nossos preconceitos pessoais e tentar ler a doutrina dessa religião
através da lente desses preconceitos. No entanto, o que nos esquecemos é que
nós temos que interiorizar o Evangelho e seus ensinamentos eternos e a partir
dessa interiorização iniciarmos um processo longo, e muitas vezes difícil, de
reforma pessoal. Mas na maioria das vezes temos que começar um processo de reconstrução pessoal. Do contrário, se
nós quisermos adequar o Evangelho aos nossos preconceitos, 1) nós vamos
continuar afastados da realidade e das situações que nos cercam, e por extensão
vamos nos afastar dos nossos semelhantes; e 2) vamos atrasar nossa evolução. A
solução que Hammed nos traz, é que “procuremos
sintonizar-nos com os olhos espirituais, porquanto nossa percepção intuitiva é
mais ampla e precisa que a visão física”. E como é que podemos nos
sintonizar com os olhos espirituais? Através do estudo, pois somente ele é
capaz de nos livrar de nossos preconceitos pessoais. Querem um exemplo? Veja
como uma parte considerável dos “espíritas” pensa sobre a homossexualidade e
sobre o indivíduo homossexual. Para muitos é um desvio de conduta, para outros
é um processo obsessivo, para alguns quebra da lei divina (ou seja, pecado) e que
tais irmãos só podem ser admitidos nas instituições
espíritas para se tratarem, jamais para serem trabalhadores. Mas se esquecem
esses irmãos de irem atrás da informação. De abrirem o livro Vida e Sexo, no
capítulo 21 e lerem e meditarem as considerações de Emmanuel sobre o tema.
Esquecem-se de lerem o capítulo 9 do livro Sexo e Destino, e meditarem no que
os Benfeitores ensinam para André Luiz sobre a homossexualidade. Estes irmãos
tem preguiça, de irem até o YouTube e gastarem cinco minutos ouvindo a opinião
de Chico Xavier sobre o tema no programa Pinga-Fogo. E por causa dessa
negligência fecham as portas dos centros espíritas, hospitais-escolas do
espírito, para estes irmãos. Pois é mais fácil nós nos mantermos na nossa zona
de conforto, do que sairmos dela, estudarmos e depois levarmos o nosso
conhecimento para o seio de nossas instituições e acolhermos nela TODAS as pessoas de boa vontade, sem
restrições, à exemplo do Mestre.
Há ainda outra coisa
que muitos tem se esquecido: a vida pessoal dos trabalhadores de uma casa
espírita ou de qualquer outra instituição religiosa não desrespeita a ninguém.
Desde que o indivíduo viva dentro dos padrões de dignidade e harmonia pessoal,
nada mais importa. Acima das condições pessoais de cada um e de suas escolhas
de vida, está a conduta de cada indivíduo na maneira correta de conduzir sua
existência. Ao que nós não devemos nos esquecer de que, a “maneira correta de
conduzir a existência” varia de pessoa para pessoa, pois cada indivíduo é um
espírito imortal único, que passou ao longo de suas várias encarnações por um processo
de individualização único e que vivenciou experiências e sentimentos únicos. Do
que entendemos que, não devemos julgar a quem quer que seja, pois desconhecemos
sua situação e história pessoal. Só cabe a nós respeitar o individuo, suas
condições íntimas e escolhas pessoais e acolhê-lo fraternalmente.
Em suma, uma instituição espírita, deve ser como o
Cristo: aberta para todos aqueles que desejam trabalhar na seara bendita do
Mestre. Toda forma de moralismo e legalismo, é terreno cheio de ervas daninhas
sufocando as sementes do bem. Não nos esquecemos, que o melhor e único, remédio
para vencermos nossos preconceitos pessoais é o estudo e a vontade real de nos reconstruirmos na luz vivificadora do
Evangelho. Lembremo-nos que a vida pessoal de quem quer que seja não nos
desrespeita, e não nos cabe julgar a ninguém, pois desconhecemos sua história
milenar. Inclusão é a palavra chave do Evangelho, pois ele é inclusivo. E uma
instituição que se propõe a divulgar a Boa Notícia, deve ser igualmente
inclusiva. Pois o amor é o resumo de toda a doutrina que Jesus nos ensinou, e é
o amor que fará a redenção da humanidade!
BIBLIOGRAFIA
Bíblia
de Jerusalém. Paulus, 2012.
O
Evangelho segundo o Espiritismo. Allan Kardec. Trad.
J. Herculano Pires. LAKE, 2011.
Renovando
Atitudes. Hammed psic. Francisco do Espírito Santo Neto. Boa
Nova, 1997.
Constelação
Familiar. Joanna de Ângelis psic. Divaldo P. Franco. LEAL, 2012.
