sábado, 31 de janeiro de 2015

Por que estão deixando as "flores" morrer? - Uma reflexão sobre a exclusão no meio espírita e um convite ao estudo


Tem-se verificado, em muitas instituições espíritas do Brasil, algo seriamente preocupante: a exclusão de pessoas. Sim, a exclusão dos mais diversos tipos de espíritos (encarnados, mas também de desencarnados). As portas do trabalho no Bem têm sido fechadas para irmãos e irmãs homossexuais, divorciados, pra aqueles, que por um ou vários motivos alheios aos nossos conhecimentos, se evolveram ou simplesmente nutrem sentimentos por pessoas casadas, e por aí vai uma série de outras pessoas que são marginalizadas pelas instituições espíritas, a pretexto de que são irmãos em desequilíbrio, necessitando de tratamento espiritual. O que nós vemos e que os centros espíritas estão se transformando em instituições dogmáticas e legalistas. Mas será que é esse o espírito do Cristo? Será que os trabalhadores da seara do Bem tem que ser escolhidos por detalhes de suas vidas/personalidades, que não nos desrespeitam?
“A colheita é grande, mas poucos os operários! Pedi, pois, ao Senhor da colheita que envie operários para a sua colheita” (Mateus 9:37,38. Bíblia de Jerusalém). Esse é um dos mais importantes convites do Cristo. Como sabemos, a seara Divina está sempre precisando de novos operários. Afinal, “os campos já estão brancos para colheita” (João 4:35, BJ). No período que vive nosso planeta – a transição planetária – mais e mais irmãos têm afluído às casas espíritas, muitos a procura de socorro (que depois, poderão se juntar aos operários do Cristo), outros vem para trabalhar e se doar no trabalho no Bem e outros ainda, se achegam de nossas instituições devido a compromissos reencarnatórios, de auxílio e estudo, assumidos ao reencarnarem. Diante disso deveríamos fechar as portas do trabalho para estes irmãos? Como lemos no livro Nosso Lar, quando o trabalhador está pronto o serviço aparece para ele. Deveríamos nós impedi-lo de trabalhar?
Acredito que vem faltando a muitos espíritas, refletirem um pouco sobre as atitudes de Jesus. O Mestre estava sempre ao lado de toda sorte de gente (Marcos 2:15). Eram os cobradores de impostos, as mulheres, as crianças, os leprosos, as prostitutas. Em suma, o Mestre sempre estava com todos aqueles que eram marginalizados pela sociedade e pelo sistema religioso da época. Entre os seus discípulos estava um cobrador de impostos, Levi (Marcos 2:13,14). Jesus não desprezou ninguém! Todos que queriam ouvi-lo e disseminar a Boa Nova eram por ele aceitos. E Jesus, não olhava para os detalhes da personalidade ou da vida daqueles indivíduos, mas o Mestre olhava para o íntimo daqueles espíritos. Pois paremos e reflitamos um pouco, sobre Levi e o jovem rico (Marcos 10: 17-22). Levi era rechaçado por todo o povo de sua época por ser um publicano. No período da dominação romana, os impostos cobrados foram o que os judeus tiveram mais dificuldade para aceitarem. Logo, eles tinham verdadeiro pavor dos impostos, e consequentemente, dos encarregados de cobrá-los. Mas foi naquele publicano, que o Cristo viu o potencial para levar a sua mensagem aos corações flagelados. Foi aquele que a sociedade constantemente maldizia e desprezava que aceitou de bom grado o trabalho na seara de Jesus e posteriormente, tornou-se um dos quatro evangelistas. Já aquele jovem rico era o modelo ideal de conduta. Seguia desde a mocidade os mandamentos da lei mosaica (Marcos 10:20), mas no entanto o seu coração não trazia a disposição para o trabalho. Dentro de si não havia sentimentos fraternos. Pois quando o Mestre o convidou a dar sua riqueza aos que mais necessitavam e segui-lo ele “contristado com essa palavra saiu pesaroso, pois era possuidor de muitos bens” (Marcos 10:22, BJ). Vejam só, que um era marginalizado pela sociedade e o outro era o modelo ideal da sociedade judaica, mas o Mestre não se deixou levar pelo que dizia a sociedade. O Mestre não se deixou levar pelas aparências. Mas ele viu o que cada um trazia dentro de si. ‘Mas nós não podemos ver o íntimo dos outros!’, argumentam alguns. Por isso, devemos nos lembrar de fazermos ao nosso semelhante àquilo que gostaríamos que fizessem conosco. Porque o amor, esse amor irrestrito e inclusivo, conforme nos exemplificou o Cristo, é o resumo de toda a doutrina que o Cristo nos ensinou, é o que nos propicia andarmos de forma mais segura em nossa estrada evolutiva e ajudarmos na evolução de nosso planeta. O que muitos se esquecem de que o Evangelho é inclusivo. Todos os corações de boa vontade são chamados a espalhá-lo pelo mundo!
O Espírito de Hammed, através da mediunidade de Francisco do Espírito Santo Neto, nos traz alguns ensinamentos muito importantes. Ele nos ensina que as maneiras errôneas de vermos (e compreendermos) a múltiplas manifestações da sexualidade, as múltiplas manifestações religiosas, o casamento, a diversidade étnica e profissional só tem nos afastado da realidade das situações e dos indivíduos. Todos sabem que quando ingressamos na religião x ou y nós temos a tendência de levar para ela nossos preconceitos pessoais e tentar ler a doutrina dessa religião através da lente desses preconceitos. No entanto, o que nos esquecemos é que nós temos que interiorizar o Evangelho e seus ensinamentos eternos e a partir dessa interiorização iniciarmos um processo longo, e muitas vezes difícil, de reforma pessoal. Mas na maioria das vezes temos que começar um processo de reconstrução pessoal. Do contrário, se nós quisermos adequar o Evangelho aos nossos preconceitos, 1) nós vamos continuar afastados da realidade e das situações que nos cercam, e por extensão vamos nos afastar dos nossos semelhantes; e 2) vamos atrasar nossa evolução. A solução que Hammed nos traz, é que “procuremos sintonizar-nos com os olhos espirituais, porquanto nossa percepção intuitiva é mais ampla e precisa que a visão física”. E como é que podemos nos sintonizar com os olhos espirituais? Através do estudo, pois somente ele é capaz de nos livrar de nossos preconceitos pessoais. Querem um exemplo? Veja como uma parte considerável dos “espíritas” pensa sobre a homossexualidade e sobre o indivíduo homossexual. Para muitos é um desvio de conduta, para outros é um processo obsessivo, para alguns quebra da lei divina (ou seja, pecado) e que tais irmãos só podem ser admitidos nas instituições espíritas para se tratarem, jamais para serem trabalhadores. Mas se esquecem esses irmãos de irem atrás da informação. De abrirem o livro Vida e Sexo, no capítulo 21 e lerem e meditarem as considerações de Emmanuel sobre o tema. Esquecem-se de lerem o capítulo 9 do livro Sexo e Destino, e meditarem no que os Benfeitores ensinam para André Luiz sobre a homossexualidade. Estes irmãos tem preguiça, de irem até o YouTube e gastarem cinco minutos ouvindo a opinião de Chico Xavier sobre o tema no programa Pinga-Fogo. E por causa dessa negligência fecham as portas dos centros espíritas, hospitais-escolas do espírito, para estes irmãos. Pois é mais fácil nós nos mantermos na nossa zona de conforto, do que sairmos dela, estudarmos e depois levarmos o nosso conhecimento para o seio de nossas instituições e acolhermos nela TODAS as pessoas de boa vontade, sem restrições, à exemplo do Mestre.
Há ainda outra coisa que muitos tem se esquecido: a vida pessoal dos trabalhadores de uma casa espírita ou de qualquer outra instituição religiosa não desrespeita a ninguém. Desde que o indivíduo viva dentro dos padrões de dignidade e harmonia pessoal, nada mais importa. Acima das condições pessoais de cada um e de suas escolhas de vida, está a conduta de cada indivíduo na maneira correta de conduzir sua existência. Ao que nós não devemos nos esquecer de que, a “maneira correta de conduzir a existência” varia de pessoa para pessoa, pois cada indivíduo é um espírito imortal único, que passou ao longo de suas várias encarnações por um processo de individualização único e que vivenciou experiências e sentimentos únicos. Do que entendemos que, não devemos julgar a quem quer que seja, pois desconhecemos sua situação e história pessoal. Só cabe a nós respeitar o individuo, suas condições íntimas e escolhas pessoais e acolhê-lo fraternalmente.
Em suma, uma instituição espírita, deve ser como o Cristo: aberta para todos aqueles que desejam trabalhar na seara bendita do Mestre. Toda forma de moralismo e legalismo, é terreno cheio de ervas daninhas sufocando as sementes do bem. Não nos esquecemos, que o melhor e único, remédio para vencermos nossos preconceitos pessoais é o estudo e a vontade real de nos reconstruirmos na luz vivificadora do Evangelho. Lembremo-nos que a vida pessoal de quem quer que seja não nos desrespeita, e não nos cabe julgar a ninguém, pois desconhecemos sua história milenar. Inclusão é a palavra chave do Evangelho, pois ele é inclusivo. E uma instituição que se propõe a divulgar a Boa Notícia, deve ser igualmente inclusiva. Pois o amor é o resumo de toda a doutrina que Jesus nos ensinou, e é o amor que fará a redenção da humanidade!

BIBLIOGRAFIA

Bíblia de Jerusalém. Paulus, 2012.

O Evangelho segundo o Espiritismo. Allan Kardec. Trad. J. Herculano Pires. LAKE, 2011.

Renovando Atitudes. Hammed psic. Francisco do Espírito Santo Neto. Boa Nova, 1997.

Constelação Familiar. Joanna de Ângelis psic. Divaldo P. Franco. LEAL, 2012.